SAPECA DO CAMPO NATIVO: FOGO QUE DESTRÓI OU FOGO QUE MANEJA?

Uma prática tradicional dos Campos de Cima da Serra sob a ótica do manejo, da legislação e da conservação das pastagens naturais

Nos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, a paisagem do final do inverno apresenta uma característica marcante: extensas áreas de campo cobertas por vegetação seca e senescente, popularmente denominada macega. Em determinadas propriedades, nesse período também se observa outra cena que pode causar estranhamento a quem desconhece a realidade regional: áreas de campo recém-queimadas.

À primeira vista, fogo e conservação ambiental parecem conceitos incompatíveis. Entretanto, nem todo fogo no campo é incêndio.

Existe uma diferença fundamental entre incêndio, queimada indiscriminada e queima controlada empregada como ferramenta de manejo. Nos Campos de Cima da Serra, essa última prática é tradicionalmente conhecida como sapeca do campo nativo.

UMA PRÁTICA TRADICIONAL DE MANEJO

A utilização criteriosa do fogo em pastagens naturais constitui prática antiga nos sistemas pecuários da região. A sapeca é realizada principalmente no final do inverno, quando há grande quantidade de material vegetal seco acumulado sobre o campo.

Entre seus objetivos estão a remoção da macega seca, a redução temporária da parte aérea de determinadas plantas indesejáveis e a criação de condições favoráveis à retomada do crescimento da vegetação herbácea.

Espécies como carquejas, maria-mole, gravatás e diferentes espécies conhecidas regionalmente como vassouras podem fazer parte da vegetação submetida ao manejo. É importante, entretanto, não atribuir ao fogo uma capacidade indiscriminada ou definitiva de controle dessas plantas. Dependendo da espécie, estruturas subterrâneas podem sobreviver e permitir nova brotação.

Assim, tecnicamente, é mais adequado considerar a sapeca como um componente do manejo da vegetação, e não como método isolado de erradicação de plantas indesejáveis.

O QUE ACONTECE DEPOIS DO FOGO?

É justamente nos dias e semanas posteriores à sapeca que ocorre um fenômeno agronomicamente interessante.

A camada de material seco que sombreava a superfície é reduzida e luz, temperatura e espaço passam a favorecer a retomada do crescimento da vegetação herbácea. Gemas e estruturas vegetativas protegidas próximas ou abaixo da superfície do solo podem permanecer viáveis e iniciar rapidamente nova brotação.

Em determinadas espécies, o calor e as alterações ambientais produzidas pelo fogo também podem interferir na dormência e germinação de sementes.

Por isso, pouco tempo depois da queima, o contraste pode ser expressivo: entre restos vegetais escurecidos começam a aparecer novos tecidos verdes.

É essa resposta que explica, em parte, a permanência histórica da sapeca nos sistemas pastoris dos Campos de Cima da Serra.

SAPECA, MELHORAMENTO DO CAMPO NATIVO E REALIDADE DO PRODUTOR

A utilização do fogo não deve ser considerada de forma isolada. Em sistemas de melhoramento de campo nativo, a sapeca pode integrar um conjunto mais amplo de práticas agronômicas, envolvendo, conforme diagnóstico e recomendação técnica, correção da acidez do solo com calcário, fertilização, roçada e introdução de espécies forrageiras, como azevém de ciclo tardio e trevo-branco.

Sempre que as condições de solo, relevo, mecanização e disponibilidade de recursos permitirem, práticas de melhoramento do campo nativo e o controle mecânico da vegetação podem constituir alternativas importantes. Entretanto, nem todas as áreas dos Campos de Cima da Serra apresentam condições para mecanização ou roçada, e nem todos os produtores dispõem dos mesmos recursos financeiros para realizar intervenções de maior custo. Esse aspecto também precisa fazer parte da análise de qualquer sistema de manejo.

Nesse contexto, a sapeca apresenta uma característica relevante: pode constituir uma ferramenta de manejo de relativamente baixo custo, particularmente importante para pequenos pecuaristas e para propriedades em que outras intervenções sejam técnica ou economicamente difíceis. A realidade econômica do produtor, portanto, não pode ser dissociada da discussão ambiental e agronômica sobre o emprego do fogo. Essa foi precisamente uma das questões destacadas no comentário técnico recebido sobre o tema.

Isso não significa considerar a queima como substituta automática da roçada, da correção do solo, da fertilização ou do melhoramento da pastagem. Ao contrário, a orientação técnica deve procurar, sempre que possível, integrar diferentes ferramentas de manejo, respeitando simultaneamente as características ambientais da área, a capacidade de investimento e a realidade de cada sistema produtivo. Como ressaltado no comentário, onde é possível realizar melhoramento do campo nativo ou roçada, essas práticas são recomendadas pela Extensão Rural, sem desconsiderar as limitações econômicas enfrentadas pelo agricultor.

A discussão sobre a sapeca, portanto, não deveria transformar o produtor que utiliza legalmente o fogo em “vilão”. O pequeno pecuarista muitas vezes trabalha sob limitações econômicas importantes e utiliza uma prática que, além de tradicional, pode representar uma das ferramentas disponíveis e compatíveis com sua realidade produtiva. O ponto central deve ser outro: como empregar essa ferramenta de maneira tecnicamente justificada, ambientalmente responsável, economicamente racional e rigorosamente dentro da legislação.

Em áreas nas quais se realiza o melhoramento do campo nativo, procura-se conciliar a manutenção da matriz de vegetação natural com aumento da disponibilidade e da qualidade da forragem. O fogo passa, assim, a representar uma ferramenta possível dentro de um sistema integrado de manejo, e não o sistema de manejo em si.

E A LEGISLAÇÃO?

O emprego do fogo na vegetação é submetido a restrições legais justamente pelo risco de sua utilização inadequada.

O Código Florestal Brasileiro – Lei Federal nº 12.651/2012, em seu art. 38, estabelece como regra geral a proibição do uso do fogo na vegetação, mas prevê situações excepcionais nas quais pode ser autorizado pelo órgão ambiental competente, incluindo práticas agropastoris quando peculiaridades locais ou regionais justificarem seu emprego, mediante critérios de monitoramento e controle.

No Rio Grande do Sul, a legislação estadual contempla o uso controlado do fogo no manejo de determinadas pastagens. A Lei Estadual nº 13.931/2012, que alterou dispositivos do Código Florestal Estadual, estabeleceu condições para o emprego do fogo como prática de manejo de pastagens nativas e exóticas, mediante autorização ambiental.

Em São Francisco de Paula, município situado nos Campos de Cima da Serra, existe ainda regulamentação específica para o manejo de campo com uso do fogo.

O Decreto Municipal nº 1.951/2020 regulamentou a atividade, estabelecendo, entre outros aspectos, o período compreendido entre 15 de julho e 15 de setembro para realização da queima controlada. Posteriormente, a regulamentação municipal foi complementada e atualizada, incluindo a Instrução Normativa nº 01/2024, o Decreto Municipal nº 2.711/2025 e, mais recentemente, a Lei Municipal nº 4.030/2026, relacionada aos procedimentos de renovação da Licença de Queima Controlada.

Portanto, a existência de uma época tradicionalmente destinada à sapeca não significa autorização automática para colocar fogo no campo. A prática deve estar devidamente licenciada e obedecer às exigências técnicas e ambientais estabelecidas pelos órgãos competentes.

QUEIMA CONTROLADA NÃO É INCÊNDIO

Essa distinção merece ser enfatizada.

Um incêndio caracteriza-se pela propagação não controlada do fogo, podendo atingir florestas, campos, benfeitorias, propriedades vizinhas, animais e pessoas.

A queima controlada, ao contrário, pressupõe planejamento, delimitação da área, medidas preventivas, condições meteorológicas adequadas, pessoal suficiente para acompanhamento e procedimentos destinados a impedir a fuga do fogo.

Aceiros, direção e intensidade do vento, umidade da vegetação e do ar, temperatura e disponibilidade de material combustível são fatores que interferem diretamente no comportamento do fogo.

Por isso, uma prática tradicional somente pode continuar sendo considerada uma ferramenta de manejo quando realizada dentro dos limites técnicos, ambientais e legais estabelecidos para sua execução.

AS IMAGENS CONTAM A HISTÓRIA

As fotografias que acompanham este artigo, apresentadas logo abaixo, foram obtidas em área de campo nativo submetida à sapeca em 18 de agosto de 2026, nos Campos de Cima da Serra.

Nelas podem ser observadas carquejas e maria-mole com suas partes aéreas atingidas pelo fogo, grande quantidade de material vegetal seco consumido ou carbonizado e, simultaneamente, a rebrota da vegetação herbácea.

Em meio aos tons castanhos e negros deixados pela passagem do fogo, novas folhas verdes já emergem das touceiras.

Essa sequência visual é particularmente didática porque demonstra que o efeito do fogo sobre uma pastagem não termina quando as chamas desaparecem. A resposta da comunidade vegetal prossegue nas semanas e meses seguintes.

É também por essa razão que os efeitos da sapeca não devem ser avaliados apenas imediatamente após sua realização. Devem ser considerados aspectos como velocidade e composição da rebrota, produção de forragem, resposta das espécies indesejáveis, cobertura do solo e evolução da vegetação ao longo do tempo.

FOGO: VILÃO OU FERRAMENTA?

Talvez a pergunta não deva ser simplesmente se o fogo é bom ou ruim.

Fogo fora de controle destrói. Fogo empregado sem critérios pode causar danos ambientais, patrimoniais e humanos.

Por outro lado, a história dos sistemas pastoris demonstra que, sob determinadas condições ecológicas, o fogo também pode atuar como agente de manejo da vegetação.

Nos Campos de Cima da Serra, a sapeca integra uma tradição agropastoril antiga. Sua permanência no século XXI, entretanto, não pode depender apenas da tradição. Deve estar sustentada por conhecimento agronômico, responsabilidade ambiental, acompanhamento técnico, segurança e cumprimento rigoroso da legislação.

A discussão também precisa considerar quem maneja esses campos e em quais condições econômicas o faz. Uma tecnologia não pode ser avaliada apenas pelo que seria agronomicamente ideal em condições de recursos ilimitados. Relevo, possibilidade de mecanização, tamanho da propriedade, disponibilidade de mão de obra e capacidade de investimento fazem parte da decisão. Sustentabilidade ambiental, viabilidade econômica e permanência do produtor no campo precisam caminhar juntas.

A questão, portanto, não é defender ou condenar o fogo de forma genérica.

A questão é compreender onde, quando, por que e como utilizá-lo.

E talvez esteja justamente aí a diferença entre queimar um campo e manejar um campo com fogo.

Sobre o Autor

Eng. Agr. Valmir Duarte

Ph.D. Plant Health (LSU, USA), CREA-RS 29.404, Professor Titular de Fitopatologia (UFRGS, aposentado), Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6204200065048092, Diretor da PHOM – Plant Health Open Market

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