Erva-de-Sião (Chromolaena odorata) em Canela, RS

Erva-de-Sião ou Cambará-de-borboleta: ÔNUS e BÔNUS

SUMÁRIO

Chromolaena odorata (Cambará-de-Borboleta ou Erva-de-Sião), registrada em Canela, RS, nos meses de março e abril de 2026, é uma espécie de comportamento ecológico ambivalente, cujo impacto varia conforme o contexto em que está inserida: amplamente reconhecida como invasora agressiva em regiões da Ásia e África, onde causa sérios prejuízos ambientais e agrícolas, essa mesma planta pode, nas condições brasileiras, apresentar utilidades relevantes, como produção de biomassa, cobertura do solo e aplicações tradicionais; assim, sua avaliação não deve ser absoluta, mas contextual, pois, quando mal posicionada, representa um problema, enquanto, no local adequado e sob manejo correto, pode se tornar uma verdadeira bênção.

INTRODUÇÃO

Cambará-de-Borboleta é um dos nomes comuns, mas o mais ocorrente internacionalmente é erva-de-Sião (ou erva-do-Sião), tradução direta do termo em inglês Siam weed. A origem desse nome está ligada à história da dispersão da planta no sudeste asiático; embora nativa das Américas (incluindo o Brasil), foi introduzida na Ásia tropical há muito tempo. O nome refere-se ao Sião (antigo nome da Tailândia), região onde ela se tornou uma das espécies invasoras mais agressivas e visíveis, ocupando vastas áreas de terras agrícolas e florestais.

Cambará-de-Borboleta, registrada em Canela, é uma espécie invasora que tem causado impactos severos em outras regiões do mundo, como na África Oriental, onde reduz a biodiversidade nativa, diminui a disponibilidade de pasto, prejudica a produção agrícola e hídrica, dificulta a mobilidade e ameaça os meios de subsistência das comunidades rurais, exigindo medidas de controle eficazes (Shackleton et al., 2017).

Cambará-de-Borboleta exerce dominância ecológica ao liberar aleloquímicos que inibem a germinação e o crescimento de espécies nativas, assegurando exclusividade no nicho biológico (Saha & Das, 2025; Zhu et al., 2025).

No entanto, à luz de uma análise contextual, especialmente nas condições brasileiras, essa mesma espécie pode assumir funções úteis quando adequadamente manejada, evidenciando seu caráter dual: problemática quando fora de contexto, mas potencialmente benéfica quando inserida no ambiente correto.

RESILIÊNCIA ECOLÓGICA

Cambará-de-Borboleta exibe uma notável RESILIÊNCIA ECOLÓGICA ao ajustar a morfologia de suas folhas e a densidade radicular conforme a disponibilidade hídrica, o que lhe confere vantagem competitiva em ambientes variáveis. Durante períodos de seca severa, a espécie entra em um estado de dormência parcial, retomando um crescimento explosivo imediatamente após as primeiras chuvas; essa rápida reativação metabólica permite que ela ocupe o espaço e os recursos antes das plantas nativas, que geralmente possuem uma recuperação mais lenta (Kumar & Singh, 2024; Sharma et al., 2025).

DISPERSÃO MACIÇA E BANCO DE SEMENTES

A elevada capacidade reprodutiva da Cambará-de-Borboleta é evidenciada pela produção de mais de 80.000 sementes por ciclo em uma única planta, as quais possuem estruturas chamadas “papus” que facilitam a dispersão anemocórica (vento) por longas distâncias. Além da eficiência na propagação pelo vento, essas sementes formam um banco de sementes persistente, mantendo a viabilidade no solo por vários anos e germinando massivamente após perturbações mecânicas, como arações ou obras civis (Smith & Brown, 2024; Wang et al., 2024) .

FITOTERAPIA: POTENCIAL ANTI-INFLAMATÓRIO

Pesquisas contemporâneas indicam que Cambará-de-Borboleta possui um vasto perfil farmacológico, destacando-se por suas propriedades antidiabéticas através da inibição da enzima alfa-glucosidase, o que auxilia no controle glicêmico. No campo da oncologia, extratos das folhas demonstraram atividade citotóxica promissora contra linhagens de células de câncer colorretal, induzindo a apoptose em células tumorais. Além desses efeitos, a planta é amplamente reconhecida por sua potente ação cicatrizante em queimaduras e feridas, além de apresentar capacidades antimicrobianas contra bactérias multirresistentes, antioxidantes e anti-inflamatórias, consolidando seu valor tanto na medicina tradicional quanto na biotecnologia moderna (Adedapo et al., 2026; Yusuf et al., 2024; Zhu et al., 2025). 

Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) com inflorescência delicada de coloração lilás, formada por numerosos pequenos capítulos reunidos em um conjunto arredondado, com finos filamentos que conferem aspecto plumoso e botões ainda fechados ao redor; Avenida Cônego João Marchesi, 29°19’57.7″S 50°46’56.7″W, Canela, RS, em 16/03/2026.
Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata), 29°19’57.7″S 50°46’56.7″W, Canela, RS, em 16/03/2026.
Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata), Avenida Cônego João Marchesi, 29°19’57.7″S 50°46’56.8″W, Canela, RS, em 16/03/2026.
Folhas de Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata), registradas na Av. Cônego João Marchesi, Canela–RS (29°19’57.7″S, 50°46’56.7″W), em 16/03/2026.
Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) com folhas opostas serrilhadas e botão floral em desenvolvimento, registrada na Av. Cônego João Marchesi, Canela–RS (29°19’15.1″S, 50°46’33.5″W), em 10/04/2026.
Planta de Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) florida, registrada na Av. Cônego João Marchesi, Canela–RS (29°19’57.7″S, 50°46’56.7″W), em 16/03/2026.
Folhas de Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata), registradas na Av. Cônego João Marchesi, Canela–RS (29°19’57.7″S, 50°46’56.7″W), em 16/03/2026.
Dois capítulos (≈1,0 × 0,4 cm) e folha (≈9,0 × 5,0 cm) de Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata), em detalhe (10/04/2026).
Capítulo seccionado de Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) evidenciando vários aquênios (negros), com comprimento estimado de ≈3–5 mm, registrado em 10/04/2026. Os capítulos são formados exclusivamente por flores tubulosas (não possuem as “pétalas” externas chamadas lígulas, comuns em margaridas). Brácteas: Cada capítulo é envolvido por várias fileiras de brácteas involucrais (folhas modificadas) de tamanhos desiguais, que protegem as flores jovens.
Aquênios (negros) de Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) obtidos de capítulo desmembrado, com comprimento estimado de ≈3–5 mm, registrados em 10/04/2026.
Aquênios (frutos, “sementes”, estruturas negras) de Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) obtidos de capítulo seccionado, com papilhos evidentes, comprimento estimado de ≈3–5 mm, registrados em 11/04/2026, após 12 horas de secagem ao ar livre sobre papel milimetrado. Cálice Modificado: O cálice das flores é transformado em um papo (ou pappus), composto por cerdas que auxiliam na dispersão dos frutos (aquênios) pelo vento.
Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) em floração, com inflorescências terminais de coloração lilás-clara, em área de vegetação espontânea, registrada na Av. Cônego João Marchesi, Canela–RS (29°19’57.7″S, 50°46’56.7″W), em 16/03/2026.
Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) em plena floração, com capítulos florais lilás-esbranquiçados e sementes em formação, na Av. Cônego João Marchesi, Canela–RS (29°19’57.7″S, 50°46’56.7″W), em 16/03/2026.
Capítulos de Cambará-de-Borboleta (Chromolaena odorata) em diferentes estágios e presença de cadáver de lagarta sobre os capítulos, registrada na Av. Cônego João Marchesi, Canela–RS (29°19’15.1″S, 50°46’33.5″W), em 10/04/2026.

As inflorescências da Cambará-de-Borboleta funcionam como verdadeiros “oásis” para uma vasta gama de insetos polinizadores, desempenhando um papel ecológico crucial, especialmente em áreas onde outras fontes de néctar são escassas.

AS BORBOLETAS: AS VISITANTES FAVORITA

Cambará-de-Borboleta é amplamente conhecida por atrair Lepidópteros (borboletas e mariposas). Por isso, em algumas regiões, ela recebe nomes como “cambará-de-borboleta.

  • O Atrativo:Suas flores produzem néctar em abundância, rico em açúcares e alcaloides pirrolizidínicos.
  • A Relação Especial: Algumas espécies de borboletas (especialmente da subfamília Danainae) utilizam esses compostos químicos da planta para sintetizar feromônios sexuais e para se tornarem tóxicas a predadores, estabelecendo uma relação de dependência química.
Uma borboleta do gênero Actinote pousa sobre a inflorescência em capítulo da Cambará-de-Borboleta, ilustrando a estreita relação entre os polinizadores e a Erva-de-Sião. Ao buscar o néctar, o inseto não apenas realiza a polinização da planta, mas também absorve alcaloides pirrolizidínicos que lhe conferem proteção química contra predadores. Este registro fotográfico em Canela/RS evidencia a importância biológica dessa espécie da família Asteraceae, que, apesar de seu comportamento invasor em outras regiões, serve como recurso alimentar fundamental para a fauna local em seu habitat nativo.
Uma borboleta da espécie Anthanassa texana (ou similar da tribo Melitaeini) é vista sobre os capítulos florais, demonstrando a atratividade da Chromolaena odorata para diferentes famílias de Lepidoptera além das Actinote. Enquanto se alimenta, o inseto entra em contato com o pólen produzido nas flores tubulosas, facilitando a reprodução cruzada necessária para a formação dos frutos do tipo aquênio. Essa interação em Canela/RS reforça o papel da planta como base de uma rede trófica complexa, onde a oferta massiva de flores em panículas corimbosas sustenta a biodiversidade de polinizadores durante seu pico de floração.
Nesta imagem, observamos uma borboleta da família Pieridae (frequentemente chamadas de “branquinhas”) explorando a inflorescência, o que destaca o contraste cromático entre as asas claras do inseto e o lilás vibrante dos capítulos em floração. Esta interação evidencia a eficiência da Chromolaena odorata em atrair polinizadores generalistas, que utilizam os longos estiletes das flores tubulosas como guias para alcançar o néctar. A presença de múltiplos botões florais ainda fechados na panícula corimbosa sugere um período de floração prolongado, garantindo uma oferta constante de recursos energéticos para a fauna local e assegurando a produção sucessiva de aquênios para a dispersão da espécie.

Cambará-de-Borboleta é o que os ecólogos chamam de planta melífera de alto valor. Sua inflorescência em capítulos agrupados em panículas permite que a borboleta pouse em uma “plataforma” e visite dezenas de flores tubulosas sem precisar voar novamente, economizando energia (vídeo). Além disso, a presença de estiletes longos facilita o pouso de espécies com diferentes tamanhos de patas e estruturas bucais (probóscide) (Kumar & Singh, 2024; Zhu et al., 2025).

ABELHAS E POLINIZAÇÃO GENERALISTA

Além das borboletas, a planta atrai diversosHimenópteros(abelhas e vespas).

  • Abelhas Melíferas e Nativas:Devido ao aroma suave e à facilidade de acesso ao pólen e néctar nas flores tubulosas, abelhas de diversas espécies são visitantes frequentes, o que torna a planta importante para a manutenção dessas populações em ecossistemas degradados.

Impacto na Dispersão

Embora a polinização por insetos seja essencial para a produção de sementes, vale lembrar que, uma vez polinizada, a planta gera os milhares deaquênios(sementes com “paraquedas”) que serão espalhados pelo vento (anemocoria), conforme discutimos anteriormente.

A imagem revela a presença de uma abelha melífera (Apis mellifera) imersa noscapítulosdaChromolaena odorata, evidenciando a importância da espécie como planta melífera para a produção de mel e própolis. Ao contrário das borboletas, que buscam predominantemente o néctar, a abelha coleta ativamente o pólen nas flores tubulosas, transportando-o em suas corbículas e garantindo uma polinização cruzada altamente eficiente. Este comportamento em Canela/RS demonstra como a Erva-de-Sião sustenta não apenas polinizadores silvestres, mas também insetos de importância econômica, integrando-se ao ciclo produtivo local através da oferta de recursos florais em abundância.
A mamangava (Bombus sp.) visitando as flores de Chromolaena odorata em Canela (RS), 13abr2026, 29°20’03.9″S 50°47’02.9″W.

CONCLUSÃO

A ocorrência de Chromolaena odorata em Canela (RS) representa um ponto de atenção sob o ponto de vista fitossanitário e ambiental, sobretudo em razão de seu reconhecido potencial invasor e elevada capacidade de dispersão. Em diversas regiões do mundo, como Ásia e África, a espécie se consolida como um problema significativo, causando impactos ecológicos, produtivos e sociais amplamente documentados. No entanto, no contexto brasileiro — onde é nativa — seu comportamento tende a ocorrer sob maior equilíbrio ecológico, podendo inclusive apresentar utilidades agronômicas e aplicações tradicionais quando inserida e manejada adequadamente.
Dessa forma, sua avaliação deve ser necessariamente contextual: fora de equilíbrio ou em locais inadequados, a espécie pode representar risco e exigir controle; por outro lado, em condições apropriadas, pode assumir funções benéficas. Assim, o registro em Canela reforça não apenas a necessidade de monitoramento contínuo e manejo responsável, mas também a importância de uma análise técnica criteriosa, que reconheça tanto os riscos quanto os potenciais da espécie — afinal, trata-se de um caso clássico em que, dependendo do contexto, a mesma planta pode ser problema ou solução.

LITERATURA

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Sobre o Autor

Eng. Agr. Valmir Duarte

Ph.D. Plant Health (LSU, USA), CREA-RS 29.404, Professor Titular de Fitopatologia (UFRGS, aposentado), Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6204200065048092, Diretor da PHOM – Plant Health Open Market

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