MARIA-MOLE: LINDA, MAS VENENOSA!

Senecio brasiliensis (Spreng.) Less., Asteraceae – maria-mole, mal-me-quer
Cacho florido de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer), mostrando seus característicos capítulos amarelos em forma de pequenas margaridas e as folhas longas, estreitas e profundamente divididas. A planta, comum em pastagens e campos do Sul do Brasil, destaca-se pela beleza das flores, mas é conhecida por sua alta toxicidade para bovinos e equinos (Canela, RS, 29°20’14.3″S 50°47’12.3″W).

Características botânicas

Senecio brasiliensis é uma herbácea perene ereta, podendo atingir de 1 a 2 m de altura, com caule verde a levemente lenhoso na base e bastante ramificado, formando touceiras densas. As folhas são alternas, sésseis, profundamente divididas (pinnatissectas), com 2–4 pares de segmentos longos e estreitos, lembrando pequenas “lancinhas” ao longo do caule. As inflorescências formam grandes cimeiras terminais com numerosos capítulos amarelos, radiados, semelhantes a pequenos “margaridões”, muito vistosos na paisagem de campo. Os frutos são cipselas pequenas, marrons, providas de papus branco e sedoso, que facilita a dispersão pelo vento, contribuindo para a rápida colonização das áreas onde ocorre. eppo.int+1

Toxicidade
A beleza da maria-mole esconde um dos maiores problemas toxicológicos da pecuária do Sul do Brasil. A planta concentra alcaloides pirrolizidínicos hepatotóxicos, que após metabolização no fígado formam compostos reativos (pirróis) responsáveis por necrose e fibrose hepática progressiva em bovinos, equinos e outros animais. periodicos.ufsc.br+1 A intoxicação, conhecida como seneciose, é crônica, irreversível e muitas vezes só se manifesta clinicamente meses após o consumo, com emagrecimento, fotossensibilização, alterações neurológicas e, por fim, morte. No Rio Grande do Sul, a seneciose por Senecio spp. responde por uma parcela importante das mortes de bovinos adultos, com perdas estimadas em dezenas de milhares de cabeças por ano. SciELO+1

Planta invasora agressiva
Além de tóxica, S. brasiliensis comporta-se como uma planta invasora agressiva de pastagens naturais e cultivadas. Produz grande quantidade de sementes leves, facilmente levadas pelo vento, e coloniza rapidamente áreas de solo descoberto, pastagens degradadas ou mal manejadas. UEPG Journals+1 Em ambientes onde não há controle adequado, forma manchas densas que competem com as forrageiras por luz, água e nutrientes, reduzindo a oferta de alimento seguro para o gado. Seu potencial invasor já chamou atenção inclusive fora da América do Sul, sendo apontada como espécie potencialmente invasora em outras regiões do mundo, o que reforça a necessidade de vigilância e manejo cuidadoso. reabic.net+1

Origem dos nomes comuns
Os nomes populares da espécie refletem tanto seu aspecto ornamental quanto seu impacto sobre os rebanhos. “Maria-mole” provavelmente alude ao aspecto “fofo” da planta em plena floração, com a massa de capítulos amarelos e o papus esbranquiçado, que lembram algo leve e macio, enganando o observador desavisado. Já “mal-me-quer” e “malmequer-amarelo” remetem à semelhança dos capítulos com margaridas usadas na brincadeira de arrancar pétalas dizendo “bem-me-quer, mal-me-quer”. Outro nome muito comum é “flor-das-almas” ou “flower-of-souls”, associado à presença frequente da planta em cemitérios e campos antigos, bem como à ideia de “levar muitas almas” de bovinos e cavalos, dada sua alta letalidade. Portal das Missões

Manejo desta “praga”
O manejo eficaz da maria-mole exige abordagem integrada, focada na prevenção da infestação, na redução do banco de sementes e na proteção do rebanho. A base é manter pastagens bem manejadas, com boa cobertura de solo, evitando revolvimentos desnecessários e superpastejo, que favorecem a invasão de Senecio. A eliminação manual ou mecânica de plantas antes da floração, com cuidadosa retirada das raízes, ajuda a reduzir a produção de sementes em áreas menores. Em escala maior, a literatura destaca o uso estratégico de ovinos, muito mais resistentes aos alcaloides, como ferramenta de controle biológico: lotações adequadas de ovelhas em pastoreio contínuo podem reduzir drasticamente a população de Senecio spp. em pastagens infestadas. Agricultura+2Lume+2 Medidas complementares incluem o uso criterioso de herbicidas seletivos, a reforma de pastagens degradadas e, sobretudo, a educação de produtores e técnicos para reconhecer a planta e impedir que animais suscetíveis consumam brotos jovens durante o vazio forrageiro de inverno. Embrapa+2Agrolink+2

Extensa infestação de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) em uma pastagem serrana, formando manchas densas de flores amarelas que contrastam com o verde do campo e o bosque de pinheiros ao fundo. A imagem evidencia o caráter invasor e agressivo da espécie, que ocupa grandes áreas e representa risco toxicológico significativo para o gado (Canela, RS, 29°19’25.6″S 50°46’24.1″W).
Grande touceira de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) em plena floração, exibindo uma massa densa de capítulos amarelos sobre vegetação campestre. A cena destaca o vigor e o porte expressivo da planta, que se sobressai na paisagem e evidencia seu potencial de invasão em áreas abertas (Canela, RS, 29°20’34.3″S 50°47’25.9″W).
Detalhe das folhas profundamente segmentadas de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer), espécie da família Asteraceae. As lâminas finas e lineares, sustentadas por ramos delgados, aparecem em primeiro plano na mão do observador, enquanto ao fundo se vêem numerosos capítulos amarelos característicos da planta em plena floração (Canela, RS, 29°20’14.7″S 50°47’12.6″W, 04.11.2025).
Touceira exuberante de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) em plena floração às margens de via em Canela, RS (29°20’30.5″S, 50°47’24.3″W). A planta, com seus numerosos capítulos amarelos e porte volumoso, destaca-se no ambiente aberto, evidenciando sua capacidade de colonizar bordas de estrada e áreas perturbadas.
Indivíduo volumoso de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) ainda no início da floração, com botões amarelos espalhados entre a folhagem fina e profundamente dividida. A planta se destaca na encosta úmida, evidenciando seu vigor e a facilidade com que coloniza áreas abertas e perturbadas (Canela, RS, 29°20’00.6″S 50°46’59.4″W).
Detalhe dos capítulos florais de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer), com flores amarelas radiadas em diferentes estágios de abertura, sustentadas por ramos delicados. A imagem destaca a textura densa do disco central e a forma estreita das pétalas, características marcantes desta espécie tóxica comum em pastagens do Sul do Brasil (Canela, RS, 29°19’15.2″S 50°46’33.3″W).
Close de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) exibindo capítulos amarelos em diferentes estágios, do botão fechado às flores plenamente abertas. A foto destaca o caule avermelhado, a ramificação delicada e as folhas estreitas e segmentadas, características marcantes desta espécie tóxica e amplamente disseminada em pastagens do Sul do Brasil (Canela, RS, 29°20’16.7″S 50°47’14.4″W).
Inflorescências abundantes de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) em fase avançada de floração, com numerosos capítulos amarelos entrelaçados sobre ramos finos. Entre eles, destacam-se pequenas massas brancas e sedosas — o papus — já surgindo nos capítulos que iniciam a frutificação. Essas estruturas plumosas funcionam como dispositivos de dispersão, permitindo que as cipselas sejam carregadas pelo vento e garantindo à espécie um alto potencial de propagação nas paisagens campestres (Canela, RS, 29°20’08.6″S 50°47’07.4″W, 12.11.2025, 28.10.2025).
Destaque de um capítulo em início de formação de sementes, onde surge a estrutura branca e sedosa do papus — um conjunto de cerdas finas que funciona como “paraquedas”, permitindo que as cipselas sejam levadas pelo vento e favorecendo a ampla dispersão da espécie no ambiente (Canela, RS, 29°20’08.6″S 50°47’07.3″W, 12.11.2025).
Profusão de capítulos florais de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) em plena floração, com numerosas flores amarelas radiadas distribuídas em ramos finos e muito ramificados. As pétalas estreitas e o disco central alaranjado formam o padrão típico da espécie, enquanto os caules alongados e avermelhados se entrelaçam entre a folhagem fina. A imagem evidencia a densidade e o vigor da planta, características que contribuem para seu comportamento invasor em áreas de campo e pastagem (Canela, RS, 29°20’08.6″S 50°47’07.4″W, 12.11.2025).
Folhas de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) dispostas sobre papel quadriculado (milimetrado) para evidenciar seu formato estreito, alongado e profundamente lobado. A imagem destaca as variações no grau de segmentação das folhas e a textura fina típica da espécie, características úteis para sua identificação botânica.
Indivíduos altos e esguios de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) em meio à vegetação campestre, com inflorescências amarelas no topo dos caules avermelhados e folhas finas, profundamente segmentadas. A cena destaca a capacidade da espécie de se elevar acima da vegetação ao redor, espalhando-se facilmente em ambientes naturais e perturbados (Canela, RS, 29°20’21.0″S 50°47’17.8″W, 28.10.2025).
Ramos floridos e folhas de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) dispostos sobre papel quadriculado para evidenciar detalhes morfológicos. Observam-se os capítulos amarelos típicos da espécie — com flores liguladas na periferia e flores tubulosas centrais — além das folhas estreitas, longas e profundamente segmentadas, características marcantes desta planta da família Asteraceae.
Densa inflorescência de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer), com inúmeros botões florais amarelos ainda fechados, distribuídos em ramos finos e ramificados. A abundância de capítulos em formação destaca o caráter prolífico e invasor da espécie, enquanto as folhas estreitas e segmentadas compõem o fundo esverdeado característico da planta (Canela, RS, 29°19’16.6″S 50°46’39.6″W, 05.11.2025)
Inflorescência exuberante de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer), com numerosos capítulos amarelos plenamente abertos. Entre as flores, observa-se o início da formação das estruturas brancas de disseminação — o papilho — composto por finos pelos que auxiliam no transporte das sementes pelo vento. As folhas estreitas e profundamente segmentadas completam a morfologia típica desta espécie tóxica e altamente invasora da família Asteraceae (Canela, RS, 29°20’29.4″S 50°47’23.8″W, 04.11.2025)
Detalhe da inflorescência de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer), mostrando numerosos capítulos amarelos em diferentes estágios de desenvolvimento — desde botões globosos até flores totalmente abertas. Os ramos finos e as folhas estreitas e profundamente segmentadas formam um emaranhado verde característico da espécie, que se destaca no meio da vegetação circundante (Canela, RS, 29°19’15.2″S 50°46’33.3″W, 04.11.2025).
Arbusto de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) crescendo em área aberta na borda de um fragmento de mata, exibindo uma massa densa de ramos finos e numerosos capítulos amarelos. A floração intensa destaca o caráter invasor da espécie, que se estabelece facilmente em solos perturbados e ambientes ensolarados (Canela, RS, 29°20’22.9″S 50°47’19.5″W, 04.11.2025)
Ramo florido de Senecio brasiliensis (maria-mole, mal-me-quer) sendo segurado pelo observador, destacando a abundância de capítulos amarelos típicos da espécie. Entre as flores, notam-se estruturas brancas de disseminação — o papilho — formadas por pelos finos que se desprendem para transportar as sementes pelo vento. As folhas estreitas e profundamente segmentadas reforçam a morfologia característica desta planta tóxica e invasora da família Asteraceae (Canela, RS, 29°20’14.7″S 50°47’12.6″W, 04.11.2025)
Campo em Lajeado Grande, São Francisco de Paula, RS, totalmente infestado (novembro 2025).

Campo em Lajeado Grande, São Francisco de Paula, RS, totalmente infesta com maria-mole (Senecio brasiliensis) (novembro, 2025).

Bibliografia

  1. EPPO. Senecio brasiliensis – Data sheet on quarantine pests. European and Mediterranean Plant Protection Organization. eppo.int
  2. Flora e Funga do Brasil – Senecio brasiliensis (Spreng.) Less. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. www.reflora.jbrj.gov.br+1
  3. Sandini, T. M. et al. “Senecio brasiliensis e alcaloides pirrolizidínicos: toxicidade em animais e na saúde humana.” Biotemas 26(2):83–92, 2013. periodicos.ufsc.br+1
  4. Panziera, W. et al. “Poisoning of cattle by Senecio spp. in Brazil: a review.” Pesquisa Veterinária Brasileira, 2018. SciELO+1
  5. Karam, F. C. et al. “Intoxicação por Senecio spp. em bovinos no Rio Grande do Sul.” Pesquisa Veterinária Brasileira 31(7), 2011. SciELO+1
  6. Dana, E. D. et al. “Senecio brasiliensis (Asteraceae), another potentially invasive alien species in Europe.” BioInvasions Records 10(3), 2021. reabic.net+1
  7. Embrapa. Plantas tóxicas em pastagens: Senecio brasiliensis e S. madagascariensis – Família Asteraceae. Circular técnica. Embrapa+1
  8. Secretaria da Agricultura/RS. “Recomendações para o controle da maria-mole (Senecio spp.) em pastagens.” Boletim técnico nº 2, 2020. Agricultura+1
  9. Bandarra, P. M. et al. “Ovinocultura como ferramenta de controle de Senecio spp.” Dissertação/UFGRS, 2014. Lume+1
  10. Paisagem e botânica – Blog “Verdade//aspas”: Asteraceae (Senecio brasiliensis), listagem de nomes populares.

Sobre o Autor

Eng. Agr. Valmir Duarte

Ph.D. Plant Health (LSU, USA), CREA-RS 29.404, Professor Titular de Fitopatologia (UFRGS, aposentado), Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6204200065048092, Diretor da PHOM – Plant Health Open Market

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